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CRU - Felipe Antunes

CRU - Felipe Antunes

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CRU

Felipe Antunes
Independente
Agosto/2018
Folk, MPB
O que achamos: Muito bom

Felipe Antunes, poeta, músico e pesquisador de São Paulo, mostra mais alguns pedaços de si no belo, profundo, pesado, vivo e íntimo CRU, segundo álbum de sua carreira solo, que segue o intenso e inesquecível Lâmina, de 2016. Felipe, também membro da banda Vitrola Sintética, indicada duas vezes ao Grammy Latino, percorre um caminho brilhante e modesto, que encanta quem tem a sorte de conhecer sua arte,  tocando quem passar por perto ou mesmo trombar por acaso. Em CRU, mais uma vez é possível se identificar com a dor de suas palavras, com a potência de sua poesia, que aliás se mistura a tantas outras poesias, e não à toa se transformou não só em álbum, mas em álbum-livro.

Reúno aqui algumas informações divertidas e interessantes sobre CRU e os artistas que acompanham Felipe. Primeiramente, há a presença de Tjalle Rens, violoncelista holandês com gestos de dançarino que traz ainda mais magia ao álbum. Tjalle e Felipe se conheceram em Amsterdã, ocasião na qual Tjalle se ofereceu para improvisar com seu violoncelo junto a Felipe, em uma apresentação que seria no formato voz e violão. O encanto foi tamanho que Tjalle foi convidado a gravar o álbum em Portugal e acompanhá-lo em seus shows no Brasil. A história, que conheci ao ser contada no show de lançamento no SESC Paulista (18.08), arrancou risos e sorrisos de uma plateia hipnotizada, por sua peculiaridade, talvez, e pelo poder desse encontro, cujo resultado é indiscutivelmente harmonioso.

CRU conta também com a presença de outros ilustres músicos. Em “Pássaro Estranho”, a doce voz da cantora moçambicana Lenna Bahule se junta a Felipe, e uma melodia sutil embala os lindos versos: “tome esse vento/ pássaro estranho/ me leve a tempo/ de repousar/ faça o que for/ possível / diante do abismo/ quero acordar”. Já “Modelo Guanabara”, faixa bastante política, que aborda o tema do racismo e do machismo, conta com, além de Lenna, Nástio Mosquito - de Angola -, o talentoso Leonardo Mendes, a brilhante Kika, o rapper Xis e o poeta Oswaldo de Camargo. Estes quatro últimos, aliás, que estiveram presentes no show de lançamento do dia 18, junto a Tjalle e Felipe, arrancaram suspiros emocionados e palmas fervorosas de quem lá estava.

Outra faixa que chama atenção é a densa “Epidemia”. Começando com um poema - trechos do Manifesto Anti-Dantas - recitado por Almada Negreiros, poeta português nascido no século XIX, a tensão criada pelo violoncelo de Tjalle se une à história contada de maneira profunda e cortante (“A cidade foi ficando toda limpa dessa história/ Toda limpa de insurgência, toda açoite, toda glória/ O passado se escorria, não havia mais tristeza/ Quem ficava em liberdade tinha acesso à natureza/ Mas o acesso vigiado, vasculhava competência/ Só poeta vacinado declamava em decadência”). Com melodias trágicas, a faixa tem vários momentos, causando sentimentos diversos ao longo de seus 9 minutos e meio, trazendo muito de “Geni e o Zepelim” à mente.

Vale mencionar também a faixa-título, “Cru”, que foi regravada, já que estava presente também no álbum anterior. Em Lâmina, a faixa parecia mais tímida, tendo o charme de ser gravada em fita-cassete; em CRU ela cresce, ganha vivacidade, sem deixar de lado a delicadeza da gravação anterior. Finalmente, como mais uma das surpresas do álbum, há a versão de “Super-Homem - A Canção”, originalmente de Gilberto Gil. A faixa, que traz a mulher como centro de uma reflexão - de modo leve e dançante - parece se encaixar com perfeição ao restante das músicas.

É possível dizer, sem hesitar, que Felipe Antunes é um dos grandes músicos da cena paulistana atual. Um incrível compositor, traz uma dose de delicadeza a letras e melodias que é rara e, quando se encontra, é preciso exaltar sem medo. Sua aparente timidez, que dá um tom ainda mais intimista a suas apresentações e gravações, amplifica a profundidade de sua música. Ouvi dizer, não lembro de quem, nem lembro onde, que o extrovertido repara mais no mundo, enquanto o introvertido se atenta mais ao que se passa em si mesmo. Parece, assim, que a introversão de Felipe faz com que suas palavras sejam cautelosamente pensadas e irreversivelmente sentidas. E, em CRU, há o amor, mas também há o mundo, e esses temas parecem se harmonizar para compor canções verdadeiramente inesquecíveis. Mais uma vez, Felipe dá para nós um presente: um álbum para ouvir sem medo, com carinho, e se deixar tocar.

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