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Saudade (O Corte 腹切り) - Ventre

Saudade (O Corte 腹切り) - Ventre

Ventre - Aquela Mancha.jpg

Saudade (O Corte 腹切り)

Ventre
Balaclava Records
Setembro/ 2018
Rock Alternativo
O que achamos: Excelente

Precisamos falar sobre Ventre.

E ao mesmo tempo, é tão difícil falar sobre Ventre.

Com o status de hiato por tempo indeterminado desde março deste ano (decidido dois meses antes pela banda), o trio formado por Larissa Conforto, Gabriel Ventura e Hugo Noguchi lançou, antes do EP Saudade (O Corte 腹切り), um álbum auto-intitulado, em 2015, que rendeu inúmeros fãs, shows inesquecíveis e um lugar indubitável entre as melhores bandas de rock brasileiro de todos os tempos. Em entrevista à Trabalho Sujo em junho, Larissa fala de uma suspensão, e não um fim, contando sobre as dificuldades de um projeto que toma grandes proporções como a Ventre tomou. A baterista abordou as complicações ao se enxergarem como compositores, a quantidade de demanda, as expectativas e o esforço exigido, já que o trio sempre se ocupou não só da banda, mas de inúmeros outros projetos, que também cresceram ao longo do tempo.

O fechamento do ciclo da Ventre abre outras portas para os talentosos músicos, que esbanjam genialidade, carisma e modéstia por onde passam. Com a habilidade de poucos de criar uma profunda conexão com quem escuta as faixas, Saudade (O Corte 腹切り) não poderia ser diferente: sem precisar de muito esforço, sentimos a aflição e a esperança de quando se torna necessária a interrupção de um caminho, para que se possa trilhar outros.

Com três faixas, o EP - íntimo, cru e poético - está previsto para ser oficialmente lançado na próxima semana, mas as músicas foram pouco a pouco mostradas, ao longo dos últimos meses. Suas temáticas são ambíguas, encaixando-se perfeitamente tanto com o momento da banda quanto com momentos da vida, como perdas, desilusões e amadurecimento. Mais do que tentar decifrá-lo, é preciso senti-lo; aliás, não é preciso, já que o processo de escutar Saudade é inevitavelmente impactante, com direito a arrepios e reflexões profundas. As faixas, lançadas separadamente e aos poucos, são densas, instrumental e liricamente complexas, dando a impressão de serem como cartas que são, ao mesmo tempo, extremamente pessoais e fáceis de se identificar. No fim, sobram a leveza e o brilho de Hugo, Larissa e Gabriel, que constroem um som que não poderia ser mais Ventre do que é, com um jogo entre obscuridade e clareza que só torna a revelar a potência da arte dos músicos.

Em “Alfinete”, primeira faixa lançada, a pedrada vem logo nas primeiras palavras: “é como se eu flutuasse com alfinetes na ponta dos pés/ ferindo tudo ao meu redor, logo eu/ logo eu, que sinto muito”. A faixa, em seus pouco mais de 7 minutos, passa por momentos de calma melancólica, que se alternam com outros nos quais a bateria pesa mais, um denso rock à la Ventre, sempre imerso por um contínuo melódico que desenha e contorna as fortes palavras de Gabriel, que canta - como sempre - suavemente e em volume baixo.

A segunda faixa a ser lançada, “O Corte”, é sem dúvidas uma das (muitas) obras-primas da Ventre. A beleza dela está, primeiramente, no modo como se constrói: sem refrões (algo inclusive comum no trabalho da banda), é como uma história sendo contada, como uma carta cuidadosamente pensada, escrita ao longo de meses, sendo lida em voz alta para o destinatário. A presença de reflexões intensas, carregadas de intimidade, é incômoda, forte, visceral. O instrumental, que cresce conforme os minutos se passam, criando momentos de tensão, conta algumas histórias e deixa outras em suspenso, revelando a carga de sentimento e a ambiguidade de sensações. E assim, de todas as eletrizantes palavras, escolho as últimas para ilustrar essa breve descrição: “como é estranho olhar pra si/ e perceber que a vida é mesmo muito pouco e/ que você é muito igual ao outro/ que você sempre criticou/ E essa ferida que ficou, se curar/ vai me ensinar a ser melhor/ mesmo ferindo até o osso/ da cicatriz nascer o novo”.

Finalmente, “Aquela Mancha (腹切り)”, é uma despedida, pessoal como uma despedida deve ser. Deixo aqui poucas palavras, pois creio que, para quem acompanha o trabalho da Ventre, ou para quem - penso, esperançosamente - pode vir a conhecê-lo por meio desse texto (e de tantos outros), é preciso escutá-la, e sentir o arrepio na pele que provoca. Como as outras duas faixas, esta mostra o crescimento do trio, as dúvidas, as crises e um fim carinhoso, cheio de amor e dor. E assim acaba Saudade, que deixa, além de muita saudade, uma mensagem de esperança, uma reflexão a respeito de encontros e desencontros, e a angústia de pensar e sentir demais. Mas bem sabemos que pensar e sentir, na verdade, nunca é demais, então é até simples assumir o vazio que a Ventre deixa no coração dos músicos e de todos os seus admiradores. Ficamos agora com os inesquecíveis presentes que Gabriel, Hugo e Larissa nos deram por meio de sua arte, sabendo que seus caminhos seguirão verdadeiros, onde quer que eles estejam. E, com as palavras de Gabriel, deixo as minhas últimas: “quero te ver sorrindo de longe/ cada vez indo mais longe”.

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