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Assume Form - James Blake

Assume Form - James Blake

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Assume Form

James Blake
Polydor
Janeiro / 2019
Pop, R&B
O que achamos: Excelente
Timbre Recomenda

James Blake é um artista seminal, tão próprio do nosso tempo que acompanhar a sua carreira em tempo real é como traçar um paralelo através de sons, tópicos, momentos culturais e situações estritamente relevantes ao tempos atuais. Ao mesmo tempo, cada transformação na sua música também parece refletir algo muito maior, por mais que a sua marca registrada seja a subjetividade e a introspecção. O produtor, músico, compositor e cantor do álbum homônimo de 2011 despia a energia do dubsteb e eletrônico para inserir experimentações, riscos na melodia, e por fim, uma quietude refrescante ao meio de tanto barulho.

Seu talento em retratar uma melancolia delicada e aquela específica solidão que aparece à noite através de progressões de notas, uma produção vanguardista e minimalista, e um alcance vocal arrepiante aos poucos criou espaço no universo pop-eletrônico-R&B dessa década. Inovou sem querer, de forma tão sutil que a sua produção ímpar, de soul vulnerável com vocais distorcidos e letras meditativas riscos de oito anos atrás enraizou-se no mainstream, de colaborações (com Kendrick Lamar em Black Panther e Beyoncé com “Forward”, do Lemonade) à inspirações diretas e indiretas (Frank Ocean, Kanye West).

A cada ano mais experimental e ao mesmo tempo mais acessível e renomado, como se essas coisas também fossem linhas paralelas dentro de uma trajetória criativa, o Blake de 2019 é ainda mais evoluído. Conforme as doze faixas provam, é um homem transformado. Assume Form é o seu quarto álbum, uma curva otimista na carreira, na qual se aproxima ainda mais com o hip-hop através das participações de Andre 3000 (sim, a lenda, o mito, o sumido), Travis Scott e o produtor Metro Boomin. Além dos versos, a própria produção flerta bastante com o gênero, principalmente o trap, com as batidas graves e o auto-tune distorcido, que levam as vozes à um quasi-tenor; e depois se unem à agudos, formam coros, se unem à voz aveludada de Blake juntamente ao piano—sempre o instrumento base/chave das músicas—e se propagam dentro do som. É hipnotizante.

Um álbum sobre mudanças e ao mesmo tempo um álbum sobre um amor avassalador (boa parte das músicas ou são sobre a namorada de anos, Jameela Jamil, a Tahani do The Good Place, ou são dedicadas a ela, relatando o dia do dia do relacionamento entre os dois em uma prosa detalhada e florida). Logo na faixa inicial, Blake promete, tanto para si mesmo, para a parceira e para nós: “I will assume form, I'll leave the ether / I will just fall and be beneath her / I will be touchable, I will be reachable” (“Eu irei assumir forma, eu vou deixar o éter / Eu irei apenas cair e estar debaixo dela / Eu serei palpável, eu estarei acessível,” em tradução livre). Uma vez que a temática é estabelecida, somos transportados.

Há certas músicas na carreira prolífica de James que parecem nos fazer flutuar. Aqui, essa característica é comum. É uma experiência etérea, de um estado espiritual sobre-elevado, ainda mais destacada nas colaborações com Andre 3000 (“Where’s the Catch?”), ROSALÍA (“Barefoot in the Park”, metade em inglês, metade em espanhol, e provavelmente o que se antes imaginava ser as trombeta dos anjos quando se chega ao céu de tão bem que as vozes e tons dos dois se encaixam) e Moses Sumney (“Tell Them”—simplesmente o melhor agudo masculino desde Prince). É arrepiante. Emocionante. Quando termina com “Lullaby For My Insomniac”, literalmente uma cantiga para ninar, com nada mais do que a própria voz sobreposta em diversas camadas ao invés de rimas infantis, a impressão que fica é que se acaba de ouvir algo pessoal, íntimo e especial. Mesmo que seja a milésima vez ouvindo a mesma música, ou o álbum inteiro.

Assume Form é um sonho em um álbum. No final da faixa-título, quando Blake canta, “Now you can feel everything / Doesn't it seem more natural? / Doesn't it see you float? / Doesn't it feel connective? / Doesn't it see you crying? / Don't you know your best side shows when you're unaware? Not thinking, just primal” (“Agora você pode sentir tudo / Não parece mais natural? / Não te vê flutuar? / Não parece que se conecta? / Não dá pra te ver chorar? / Você não conhece o seu melhor lado quando não está ciente? Não pensando, apenas primitivo”, em tradução livre)—nós sabemos exatamente o quê significa.

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