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1967: O verão do amor em 7 discos

1967: O verão do amor em 7 discos

Quase tudo que ouvimos hoje em dia tem raiz em algo que foi feito nos anos 60, década em que nasceu a psicodelia da contracultura hippie e os primórdios do punk. Botaram algo na água do mundo que fez o rock explodir em um milhão de cores e sentidos, e esse algo foi LSD.

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Smiley Smile

The Beach Boys

Um álbum que nunca foi mas é. Um mistério sobre heróis, legumes e casinhas no Havaí. Smiley Smile é a obra eternamente inacabada de Brian Wilson, que no ano seguinte de lançar um dos álbuns mais famosos e influentes da história, o Pet Sounds, decidiu que iria fazer algo maior e melhor. Infelizmente, por conta de problemas com a gravadora, Wilson abandonou o projeto e lançou-o de qualquer jeito, incompleto. No final das contas foi um fracasso e ele ainda teve que assistir um mero protótipo do seu sonho ser lançado em um mundo em que Sgt. Pepper's se tornou a bíblia e a lei. 

Tretas a parte, Smiley Smile é cheio de ideias melódicas refrescantes e cartunescas, harmonias delicadas e elaboradas e pequenos segredinhos que a cada ouvida ganham mais importância e significado. A instrumentação simples amarra todos os elementos complexos de forma delicada e cuidadosa. Os arranjos, ocos em sua incompletude, mas com uma graciosidade digna de sinfonias, ecoam o sentimento de que esse álbum poderia ter sido algo fora desse mundo, se apenas tivesse sido terminado. Será que Wilson estava prestes a mudar a história da música? Será que ia apenas decepcionar todos nós? Será que a única percussão de "Vegetables" é o Paul McCartney comendo um legume? Sim.

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Are You Experienced

The Jimi Hendrix Experience

Lançado apenas meros dias antes da bíblia psicodélica Sgt. Pepper's, Are You Experienced é nada mais nada menos do que o primeiro álbum da banda The Jimi Hendrix Experience. Considerado uma das melhores estréias da história da música, com uma banda dessas não tinha como não ser. Além de Hendrix, uma entidade divina da guitarra elétrica, enviado ao nosso humilde mundo para trazer uma revolução pura sem amarras, a banda contava também com Mitch Mitchell, um mestre da batera, que com um passo acelerado e cheio de toques de jazz, criava o altar perfeito para permitir a idolatria de Hendrix.

Os acordes dissonantes de Hendrix com o baixista Noel Redding e a caixa crua de Mitchell anunciam o que está por vir na primeira faixa do álbum, "Purple Haze". A distorção e a tensão da guitarra combinadas à entrega total dos vocais de Hendrix são embaladas sem pudor pelas acrobacias de Mitchell em um incêndio de influências, uma erupção do rock que clama "se deixe derreter". Mas não é só na inovação que Hendrix se destaca. As composições, que vão desde o blues até psicodelia, mostram diversidade e o domínio que Jimi tem tanto das texturas sonoras que emprega como também do conjunto de influências técnicas de jazz, blues e rock que consegue combinar em seu estilo único. Uma obra assustadora por toda sua força.

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The Velvet Underground and Nico

The Velvet Underground and Nico

Em 1967 a onda paz e amor estava no seu auge, mas essa banana é o auge de tudo menos isso. Velvet & Nico é um hino niilista, um estranho no ninho em muitos sentidos. Em um período em que o punk ainda estava sendo incubado, o mundo ainda não estava pronto para as melodias bêbadas, o instrumental desregrado e principalmente as temáticas ousadas de drogas e sexo. Tanto não estava pronto que o álbum vendeu meras 30 mil cópias, apesar da atrativa capa original desenhada por Warhol, que permitia que o ouvinte descascasse a (hoje) famosa banana.

Hoje em dia, são incontáveis os músicos dispostos a louvar essa obra sutil do rock, relembrando histórias de como o menor dos detalhes em uma música definiu o rumo da sua carreira inteira. De fato, disfarçadas no aparente descaso lânguido e elegante de Velvet & Nico, estão minúcias para entreter sem fim qualquer ouvinte que se dedique à sua poesia da escuridão. Repare em "Sunday Morning", enganosamente alegre em melodia, mas sobre se afundar em um vazio de domingo de manhã. Sinta a escancarada sensibilidade das letras de "All Tomorrow's Parties" e do poema inquieto de Lou Reed em "Heroin", e na dúvida, siga as instruções de Warhol: "peel slowly and see" (descasque lentamente e veja).

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I Never Loved a Man The Way I Love You

Aretha Franklin

Existe algo inegavelmente especial no soul. Há algo indecifrável por trás da mistura de R&B, gospel americano, blues e jazz, gêneros que, apesar de carregarem características de estilo tão diferentes, conseguem se reunir no soul, como se nunca tivessem se despedido para se tornar troncos distintos da mesma árvore. O soul é a extensa história da experiência negra norte americana, uma pregação de lutas de amor, da existência de si no mundo, em um encontro perfeito entre o sagrado e secular.

I Never Loved é um álbum que exala o que define o soul, não só, simplesmente, por ser cantado pela maior cantora de soul da história, como também por incluir algumas das melhores composições de grandes mestres do soul, como Otis Redding ("Respect"), Sam Cooke ("A Change is Gonna Come") e Henry Glover ("Drown in My Own Tears"). Além disso, "Respect" se tornou praticamente um registro histórico de um sentimento de revolução, lançado em meio ao movimento de direitos civis norte americano, as lutas feministas e a guerra no Vietnã. Na sua interpretação em I Never Loved, Aretha não existe em outra forma que não seja empoderada, implacável e desafiadora, mesmo em seus momentos de maior vulnerabilidade, implorando para ser amada de volta ou proclamando seu amor a alguém que não o merece. Não existe melhor representante do soul do que Aretha.

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The Doors

The Doors

Ray Manzarek e Jim Morrison começaram a tocar juntos em Los Angeles, enquanto estudavam cinema em UCLA, com Ray nos vocais (sim isso mesmo). Uns dois anos depois, encontraram os outros membros da banda, Robby Krieger (que só tocava guitarra há 6 meses) e John Densmore (baterista fortemente influenciado por jazz), tocando por mais um ano. A essa altura, o grupo já estava estufado de ideias musicais prontas para serem finalmente gravadas. Inicialmente, The Doors ia ser gravado pela Columbia, que chegou a assinar um contrato com a banda mas teve que liberar eles por não conseguir achar um produtor pro trabalho. Depois de mais espera e vários mergulhos na psicodelia, finalmente a gravadora Elektra conseguiu juntá-los com o produtor Paul A. Rothchild para começar a libertação do The Doors.

Segundo relatos do período das gravações, o primeiro album foi mesmo uma libertação em muitos sentidos. Emocionalmente, na força das letras reflexivas sobre morte, sexualidade e as dificuldades de digerir a realidade a sua volta, The Doors foi uma espécie de terapia para Jim Morrison, que encerrava as gravações exaurido e comovido. Rothchild, que acabou ficando famoso pela sua participação na obra, dizia que poucas vezes o rock conseguiu capturar um drama tão puro e visceral. A faixa final do disco, a famosíssima odisséia "The End", acaba sendo a epítome do sentimento de The Doors: um blues sombrio, o estranho órgão e guitarras quase escondidas, focadas em manter a psicodelia no fundo para a declamação perturbada e hipnotizante de Jim Morrison.

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Surrealistic Pillow

Jefferson Airplane

Lançado em fevereiro de 67, Surrealistic Pillow foi um abre alas da psicodelia, anunciando a dominação de vez do mundo da música pelos expoentes da contracultura hippie. O álbum é um representante perfeito do movimento, compilando os timbres, texturas e harmonias ideais da época, tocados por uma banda afiadíssima, em uma viagem repleta de alucinógenos e riquíssimas em simbolismos. Além de ser culturalmente muito representativo, o travesseiro surrealista foi um sucesso de vendas, sendo "Somebody to Love" e "White Rabbit" seus maiores hits.

A presença de Grace Slick é um dos elementos mais marcantes em Surrealistic Pillow. Não só como a compositora de "Somebody to Love" e "White Rabbit" (esta que, segundo ela, foi escrita em meia hora), mas também como vocalista, se destacando nas suas próprias composições e como uma camada vocal interessante junto aos vocais masculinos. As influências do folk, em músicas como "Today" e "Comin Back to Me", também tornam o album único dentre outros do mesmo gênero e época, sendo responsáveis pelos violões suaves e temas de amor que servem como intervalos bem vindos dos momentos de perdição psicodélica. 

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Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band

The Beatles

Um dos álbuns mais famosos da história definitivamente não precisa de mais uma resenha, mas ele também não tinha como ficar de fora de uma lista sobre 1967, já que foi A trilha sonora do verão do amor. Sgt. Pepper's é um álbum totalmente diferente de qualquer outro anterior dos Beatles, não só porque o a psicodelia seria o caminho natural da banda, nesse momento imersa em um período de jornada espiritual profunda, mas também por terem parado por completo de fazer turnês. 

A parada total de turnês permitiu que uma banda que já produzia álbuns de altíssima qualidade anualmente (as vezes em menos de um ano) e ainda fazia shows incessantemente, pelo mundo inteiro, tivesse um momento de liberdade e respiro para explorar influências que os atraiam com calma e sem se preocupar com a "tocabilidade" ao vivo das músicas. Uma nova dinâmica e um novo som, colorido e excitante, pediu uma nova banda, e assim que Sgt. Pepper's nasceu. Não é preciso falar muito sobre um album que anuncia sua própria chegada logo na primeira faixa, e que consegue contar histórias de uma forma tão simples e poética. É só ouvir.

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